terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Gosto tanto do Luso que é por isso que vou deixá-lo

Nota: Texto editado em Luso-poemas.net

Podia ser eu a dizer isto, mas não sou. É um outro moço que alugou um T1 na minha existência.
Eu, assim dito, sou muito provavelmente, dos moços que aqui já mais gastou tinta a falar deste coisa nova e envolvente que nos recebe no seu útero: A escrita virtual.
Neste site de referência chamado Luso-poemas, e noutros que também conheço mas não me tentam, ela trilha caminhos nunca vistos, experimenta novos significados, levanta a todos os dias questões.
Já me referi a esta realidade quase pegajosa que se nos entranha pelo corpo. Já escrevi aqui sobre a dinâmica gerada pela palavra escrita em celulóide.
Uma maravilhosa experiência de comunicação, que tem interlocutor presente, que se manifesta, que se comenta e problematiza.
Faltava-me falar do seu oposto, dando voz a um outro locatário de mim que é o dono do prédio. Faltava-me falar da necessidade de cada um se perceber nesta engrenagem que não existe, conferindo-lhe consistência.
Não raras vezes as questões menores teimam em agigantar-se aqui, enquanto outras necessárias e de urgente discussão se esfumam. Isso eu chamo fugir ao chamamento que a palavra exerce sobre quem, antes de mais, a ama.
Aquilo que hoje escrevemos e dizemos aqui, faz história. Uma arqueologia dos sites, escavadora da realidade virtual escrita, num futuro perfeitamente imprevísivel, há-de sempre enterrar as suas pás e bisturis neste mundo onde muitos de nós, utilizadores deste site, nem sequer temos consciência de verdadeiramente existirmos.
Continuo a pensar que persistir é sempre melhor que desistir, pois que mantendo-se viva a necessidade de quem escreve se projectar no seu leitor, manter-se-á sempre presente e realmente necessária a razão.
Gosto deste site da mesma forma que um diabético depende de insulina, um doente coronário de um pace-maker, um drogado da sua dose diária, mesmo que isso seja uma necessidade tão viciante quanto a ilusão de que por aqui nos fazemos melhores.
E a porra é que eu acho realmente que nos fazemos, apesar das vicicitudes
Saibamos por favor aproveitar a oportunidade de sermos melhores a cada dia.
Já vi muita gente sair e abandonar até definitivamente o site. Confesso que por vezes me apetece tirar férias. Meter na cabeça que há uma realidade para além destes terrenos. Que há a vida.
Mas essa, se quisermos pensar que também é feita de valores, de partilha e solidariedade, então também passa por aqui.
Neste lugar, neste pedaço de cada um que aqui somos, olhar o outro como quem se olha a si mesmo, é razão fundamental para continuarmos. Para fazermos da tal persistência, renovação.
Se assim não for, nunca seremos melhor que aquilo que desejamos ser.
Sejamos então.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Duas amigas em novos livros



Estarei com estas duas amigas no dia 30 e apresentarei o livro da Vera Silva.
Apareçam.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Uma estrela no bolso


Foto do google


Nota: Escrevi este texto para uma criança feliz, que adora estrelas.



Era uma vez a estrela mais brilhante do céu. Chamavam-lhe as outras, João Cintilante.

Era filho de Joana Luz, estrela muito charmosa, e de José Brilhante, um tipo bem-parecido, que usava uma longa bigodaça de fogo.

O casal vivia muito juntinho, à distância quase nada de alguns milhares de anos-luz, ali para os lados de uma constelação conhecida.

João era a estrela dos olhos de seus pais.
Rapaz novo ainda, com poucos milhões de anos, crescia feliz, brilhando tão vivo que parecia que iluminava todo o universo.

Parecia… Pois João não tinha bem ideia, por ser tão novo, dos biliões de estrelas existentes à sua volta. Todas elas diferentes.

Sua mãe, moça jovem na altura, havia casado de amor à primeira vista. Ou seja logo que lançou um olho ao galã de brilhantina numa festa de fim de ano, que é como quem diz, de milénio, que as estrelas só comemoram de muito em muito tempo estas datas…

Desse amor nasceu rapaz reguila que gostava de brincar às escondidas, obrigando pai e mãe a fingir que não o viam, fosse possível a João esconder-se em qualquer lugar com o brilho que irradiava, e o petiz pegar numa choradeira de cometas.

Vivia feliz no seio daquela família.

Cada uma respeitava a liberdade da outra, que era agora o que faltava as estrelas não se darem bem entre si.

Mas um dia, sem que nada o fizesse prever, José adoeceu gravemente. Começou lentamente a perder o seu brilho, a ficar mais fraco, a cada milénio mais apagado.

Até que se apagou de vez. A sua luz extinguiu-se, desaparecendo numa ventania estelar que de repente soprou não se sabia de onde.

João ficou muito triste.

Nos primeiros tempos quase não falava com ninguém, brilhando intermitente. Sentia que era uma enorme injustiça seu pai se ter apagado, vogando agora frio pelo espaço.

Sua mãe, um dia, vendo-o tão triste, disse-lhe:

- Chega-te aqui para o pé de mim João, que te vou contar uma história.

João aproximou-se de Joana numa ternura que encantou os planetas próximos, e ouviu da sua boca:

- Era uma vez um menino que vivia num planeta chamado Terra. Há muito, muito tempo.

Esse menino tinha um amor especial por estrelas. Adorava-as.

Sua mãe, tal como eu, contava-lhe imensas histórias onde os personagens eram sempre estrelas, estás a ver?

João acenou com um dos seus braços de luz e sorriu cintilante. Sua mãe continuou:

- E sabes porque é que gostava tanto de estrelas e de conhecer as suas histórias?

- Não...

- Esse menino perdeu um dia o seu pai... Uma doença traiçoeira ceifou-lhe a vida.

- Como aconteceu ao meu pai, não é mãe?

- É sim, meu amor… e sabes o que a mãe lhe disse para que não ficasse triste?

- Não.

- Disse-lhe que o pai era agora uma estrela
cintilante no céu.

- Como eu, mãe?

- Sim filho, como tu.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Espantalho


Foto do Google


Poeta de trapos cosido com remendos

É feito de farrapos e outros contratempos



Espantalho quase vertical girando aos ventos

Vive no meu jardim, um assim com um senão

A ninguém mete medo, poisam pássaros na sua mão



Poeta de trapos cosido com remendos

É feito de farrapos e outros contratempos



Se alguém me visita logo exclama:

- Ai que lindo palhaço você tem aqui

E o meu amigo nem sequer reclama

E eu faço de conta que não vivo ali



Poeta de trapos cosido com remendos

É feito de farrapos e outros contratempos



Há dias recitei-lhe um poema que escrevi

Falava de um certo espantalho quase feliz

A viver no meu jardim com um senão



Contava que fui sempre ele enquanto senti

Que na desdita e na ilusão me fiz

E as palavras poisavam na minha mão



Poeta de trapos cosido com remendos

É feito de farrapos e outros contratempos



Mas sabe a direcção dos ventos

Mas sabe a direcção dos ventos

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Menino da Terra


Foto de António Jorge Fernandes


Menino da guerra, hoje não matarás. Combato eu por ti.

Quero muito que te sentes na minha mesa, que comas até te fartares. Que te lambuzes de doces e sumos, que eu farei por ti a guerra, meu menino da Terra.

Hoje, nesta noite mágica de Natal, serei eu o violado, não tenhas por isso receio dos abraços, nem dos beijos, sequer dos afagos. Os Reis serão Magos.

Não te assustes quando as luzes momentaneamente se apagarem, e no escuro da sala só o fogo da lareira brilhar, que amanhã ninguém te vai queimar ou escravizar. Trabalharei por ti de sol a sol, darei as costas ao chicote daquele que se pensa forte.

Por isso desembrulha os teus medos junto a esta árvore de Natal, brinca com os meus filhos a sorrir, que hoje, hoje não precisas de fugir.

Refugiar-me-ei por ti numa tenda rota de balas, num campo de concentração farpado, mas tu, meu menino da terra, hoje vais ser amado.

Não te preocupes comigo, tenho dentro do peito tudo o que preciso. Uma arma que se chama texto e que dispararei por ti.

Mas hoje, meu menino da Terra, nem que seja só por um dia, serás igual àquele que está no céu e eu, eu desejarei que seja sempre Natal.


Nota: Desejo um Feliz Natal a todos os meus leitores e seguidores deste blogue.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Se não te apetecer escrever fica quieto - Dito por Hélder Magalhães (Moreno)


Se não te apetecer escrever fica quieto.
Mete um dedo na alma para veres se tem ovo. Se não tiver, acocora-te na mesma. Podes sempre expiar a culpa baseado no tamanho do cérebro.
Se não te apetecer escrever fica quieto, respira se for necessário. Senão for, deixa-te levar pela apneia de não pensares sequer nisso. Repousa redondo como o ovo que não havia.
Se não te apetecer escrever, não escrevas, fica quieto até que as estátuas se revoltem nas praças, os paralíticos recusem milagres para andarem, os cegos vejam o que nunca quiseram ver. Os surdos ouçam em dor.
Fica quieto!
Se não te apetecer escrever deixa-te ganhar musgo. Até ninguém te invejar. Depois, baseado em factos parcelares, constrói um universo de fósforos e pega-lhe fogo.
Vês o poema lá ao longe, cada vez mais perto?
Acena-lhe.
Mete o dedo onde quiseres. Iça uma bandeira por descargo de consciência, mas se te sobrar pano, mete as mãos no texto.
Afaga-o, envolve-o, derramo-o, bebe-o, fuma-o, esgana-o.
Mas se não te apetecer escrever fica quieto. Tão quieto que alguém pense que morreste, e depois, chame alguém que o ateste.
Se contratarem carpideiras para o teu funeral apalpa-lhes o cu quando estiverem distraídas a chorar. Se tiverem ovo tanto melhor.
Mas se não te apetecer escrever, fica quieto.
Sente este vento que não é de morte. É só o vento.
A escrita foi andar de baloiço com a vida e chegará tarde, não te maces por isso em acreditar que ainda hoje se deitará na tua cama. Se o fizer virá impregnada do cheiro de um outro.
Se a amares verdadeiramente, beija-a quando vier.
Se chegar.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Sessão na Escola EBI,2,3 de Vila Cova


Estive hoje a convite da Biblioteca Municipal de Barcelos nesta simpática escola do concelho.
Foi um prazer falar para uma plateia interessada de alunos do 9º Ano, com quem conversei da minha paixão pela escrita e desvendei alguns segredos dos quais normalmente não falo nas apresentações..
Agradeço toda a hospitalidade. A fantástica refeição e simpatia.
Aos dois alunos que musicaram o meu poema «Veneno» dizer-vos que adorei simplesmente.
Têm que gravar isso e enviar-me para eu colocar aqui no Blog.
Um abraço especial para as professoras envolvidas na organização e a todos o meu muito obrigado. Até breve.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Encontro do site Luso-Poemas


Foto de Cristina (Mim)
Organizado por vários escritores pertencentes ao site, naturais da região de Braga, decorreu em Tibães o VI Encontro deste espaço de internet que nos junta e nos faz partilhar textos e amizade.
Foi um encontro magnífico, que teve a presença de cerca de seis dezenas de Lusos e convidados, e um prazer fazer parte desta organização.

Mais fotos em: http://corpodecorcel.blogspot.com/2009/12/vi-encontro-do-luso-poemas-5-de.html

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Poema para o Ary



José Carlos Ary dos Santos
Poeta português, natural de Lisboa. Saiu de casa aos 16 anos, exercendo várias actividades como meio de subsistência.
Revelando-se como poeta com a obra Asas (1953), publicou, em 1963, o livro Liturgia de Sangue, a que se seguiram Azul Existe, Tempo de Lenda das Amendoeiras e Adereços, Endereços (todos de 1965). Em 1969, colaborou na campanha da Comissão Democrática Eleitoral e, mais tarde, filiou-se no Partido Comunista Português, tendo tido uma intervenção politizada, mas muito pessoal.
Ficou sobretudo conhecido como autor de poemas para canções do Concurso da Canção da RTP. Os seus temas «Desfolhada» e «Tourada» saíram ambos vencedores. Em 1971, foi atribuído a «Meu Amor, Meu Amor», também da sua autoria, o grande prémio da Canção Discográfica. Declamador, gravou os discos «Ary Por Si Próprio» (1970), «Poesia Política» (1974), «Bandeira Comunista» (1977) e «Ary por Ary» (1979), entre outros. Publicou ainda os volumes Insofrimento In Sofrimento (1969), Fotos-Grafias (1971), Resumo (1973), As Portas que Abril Abriu (1975), O Sangue das Palavras (1979) e 20 Anos de Poesia (1983). Em 1994, foi editada Obra Poética, uma colectânea das suas obras.
Personalidade entusiasta e irreverente, muitos dos seus textos têm um forte tom satírico e até panfletário, anticonvencional, contribuindo decisivamente para a abertura de novas possibilidades para a música popular portuguesa. Deixou cerca de 600 textos destinados a canções.
In: www.astormentas.com/ary.htm

Poema para o Ary

Olha quem ali está ao meio
E das palavras se alevanta
Madeixa sobre o rosto cheio
Em voz forte de quem nos canta

É o Ary, poeta de capote
À desfolhada de um sentir
Que do verbo faz o mote
Ser, fazer e construir

Olha quem ali canta a militância
Num cantar de putos feito
Quem nos afaga na constância
De um coração a bater no peito

Olha quem anda em nós à solta
Cavalo sem rédeas, chão de cidade
É o Ary da nossa vida toda
A pintar com palavras a verdade

Viverás eternamente a desgarrada
De quem arriscar o que escreva
De quem ame a vida na vida amada
E na morte pela vida se atreva

Olha quem ali está ao meio
E pelas palavras se agiganta
Um poeta sem epitáfio nem rodeio
A soltar-se livre da tua garganta

Até ao fundo do fim


Foto: António Jorge Fernandes


Derruba-me como um castelo de cartas,

Desconstrói-me em legos.

Apanha-me pelo Às de espadas. Trespassa-me.

Sacia-te em mim.

Prova-me inteiro a partir do osso.



Que achas de fazermos dessa verdade um livro?

Não, demasiado redutor.

Já sei, fazemos um filho de palavras a partir de

dentro.

E se nos sobrar tempo, rasgamos ao meio a dor.



Desafina-me até descobrirmos um sentido para a

palavra.

Algo que nos impeça de auxiliarmos a eutanásia

dos silêncios.

Algo que nos sacie de fome.

Sabes de alguém que possa carregar por nós o

fardo dos dias?



Eu por ti morria as vezes que fossem precisas,

Doava os olhos em vida mesmo que o tacto não

fosse garantido.

Fazia-me cigano e cortava os pulsos.

E como nunca seria tarde demais o começo daquilo

que nunca fomos

Brincávamos com Deus até do paraíso sermos

expulsos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Desconstrutivite por José Silveira


Desconstrutivite por José Silveira | Music Upload

Desconstrutivite


Foto de António Jorge Jorge Fernandes



Demorei porque atrás de mim caminhava o homem imperfeito.
Não esperei por ele só por esperar.
Uma mulher subiu ao palanque de mim por uma corda.
Perguntar-me porquê é decidir.

Se subo a ela resvalo, se espero anseio.
Metade de mim é um todo de um outro
Fazer é destruir tudo o que não me penso.

Saber de um gato que de telhados tenha zinco,
Não é menos importante que fechar a porta com o trinco
A rima quando acontece precisa de uma que se abra,
Atrás de um feixe de cinema e gorjeta esconde-se sempre um beijo.

Desconstruo-me porque quero
Tenho só um deus porque matei o outro.
Foi em Vila Real detrás dos olhos
Num dia em que para amanhecer foi preciso pedir.

E veio o vento, sorrateiro dos pinhais
Soprar-me até ganharmos líquenes
E os anéis das árvores a comprometerem
O viver no meio de coisas tão banais como o amor

A solidão falava-me de um poço. Eras tu mas eu não sabia
Foi por isso que ajudamos um cego a subir a ladeira de nós
Por uma âncora de terra que se perguntava.
Ao fundo, a tristeza era um pássaro em fogo.
Podia ser o poema?
Podia.

sábado, 28 de novembro de 2009

Na fúria do nós - Hélder Magalhães





Hélder magalhães, autor de Vizela, e um amigo já, apresentou no passado dia 7 de Novembro, na fundação Jorge Antunes, o seu livro de poesia «na Fúria do nós».
Oportunidade para conhecer melhor um autor verdadeiro até à medula, comprometido com as causas que abraça e a partilha do seu amor às letras.
Os muitos amigos e conhecidos do Hélder lá estavam, para ouvirem as suas palavras tranquilas e dizerem os seus poemas.
Um final de tarde excelente.
O meu abraço Hélder.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

por um acaso só


Foto de António Jorge Fernandes

Por um acaso só

Por um acaso que era tudo dentro das coisas
Lembrava-se de um sorriso triste
O mais belo que vira.
Os olhos, de todas as tempestades. Faróis.
Tão tristes de tão luminosos, tão vastos de tão perto
Tão ao norte quão incertos.

Um vento que de gaivotas era grito
Um rosto em tranquilidade quase aflito
Um naufrágio no coração da vaga, um sufixo.
Um afago,
Que de tão precisado parecia não ter forças para se dizer.
Um fado.

Um rasto de mar em cada afecto perdido
Um verbo urgente na urgência do verbo amar
Um quase nada dentro das coisas
Um quase tudo que desatava o nó.

Lembrava-se de um sorriso triste, por um acaso só.

domingo, 22 de novembro de 2009

O nosso Director - Escritor


A turma do 5º A durante uma sessão na Biblioteca da escola.

Recebi da Filipa, da Sara e da Diana, minhas alunas na Escola de Távora no passado ano, este texto que me deixou até emocionado, e que fizeram no Clube de Jornalismo.
Estas pequenas grandes atletas foram campeãs de corta-mato do Distrito de Viana no escalão de infantis femininos e deram-me uma das maiores alegrias da minha vida de professor e treinador.
Gosto muito delas e de todos os alunos que durante dois anos conheci nesta escola.
Um grande abraço.

O nosso Director de turma do ano passado é um grande escritor. (de fábulas, poesia e contos tradicionais)
José Ilídio era professor de Educação Física e professor do clube de desporto da nossa escola. Era um professor exemplar do qual gostávamos muito. Ficámos com boas recordações e saudades dele.
Quando andávamos no 5ªA foi ele quem nos treinou e foi graças a ele que nós conseguimos agora estar numa boa posição, no desporto escolar. Ganhámos várias provas praticadas ao sábado: mega sprint, corta mato distrital. Foi um professor á maneira!
Este professor foi director de uma equipa de futsal, pai, educador, director da nossa turma e conseguiu dirigir tudo na perfeição.
Diário de Maria Cura, Beatriz e o Espelho Mágico, que faz parte de Contos de Água e Areia, foram os livros que ele escreveu.
Estes exemplares tiveram bastante sucesso.

Estava o gato alpendorado


Foto: António Jorge Fernandes

Estava o gato alpendorado, seguro no abismo, descansado nesse equilíbrio.
O homem, chegado por um fio de arame que se estendia até ao infinito, ao tentar afastá-lo para um último passo firme, escorregou e caiu.
A meio da queda lembrou-se de já ter sido pássaro num outro tempo, bateu asas e voou.
Quando podia finalmente usufruir da liberdade, regressou ao ponto de partida.
O gato sonolento deixou-se estar, alpendorado e perfeitamente equilibrado no abismo.
O homem pairou sobre ele batendo as asas como um querubim, e preparou vingativo um pontapé.
Quando o chutou, Deus fechou os olhos. Um bombista suicida fez explodir o mundo.
Ainda lhe restavam seis vidas, nas sete dos gatos, e na próxima já tinha decidido, queria voltar a ser baleia.
Deus adormeceu a pensar em coisas boas que ainda lhe podiam acontecer, e nunca mais acordou.
Veio uma nave e arrumou os cacos.

domingo, 8 de novembro de 2009

Já não me falta nada para ser quase feliz

Perdi uma vez o meu destino num jogo de cartas.
Tinha o Às, mas descuidei-me e alguém o escondeu na manga.
Desconfio de uma mulher de formas redondas, que me observava de longe. Ali logo ao lado do meu destino sem número na porta, cúmplice de um carteiro que nunca conheci pessoalmente.
Nunca falei com o meu fígado sobre o enjoo do mundo, mas um dia ele inchou tanto que me vi obrigado a reparti-lo numa mesa onde os comensais eram pobres escolhidos a dedo.
Houve um que me perguntou se o vento cortava.
Respondi-lhe afirmativamente em Braille, comendo eu próprio um pouco de mim.
Fiz de seguida um testamento para o mundo e registei-o na conservatória mais estreita de uma rua que parecia não ter fim.
Deus, ao fundo daquilo que parecia, era uma miragem que eu via por um telescópio que me espiava.
Recordo-me de termos jogado às cartas. De ele ter dito distraído que guardava armas em casa.
Acho que lhe falei de quase tudo que tinha atravessado na garganta, revoltado, entrecortando toda a eloquência que tinha quase calado, com um silêncio estranho que uma rapariga ao longe fazia com a rodela de um limão num copo vazio de Gin.
O Às nem sequer me fazia falta. Aliás, ninguém acreditou no meu bluff quando prometi uma terra para um povo de que já não me lembro.
Desde esse momento que não preciso do destino para adivinhar o amanhã. Construo-o com palavras e uma argamassa de areia e sangue, que um dia, se o mar estiver revolto há-de fazer-me o favor de destruir.
Quando eu for só uma pedra, arremessa-ma.

sábado, 7 de novembro de 2009

Ninguém morre e vai para o céu


Foto: António Jorge Fernandes
Ninguém morre e vai para o céu.
Até se pode morrer e ir para um lugar abaixo de nós. Raiz de árvore, seiva de flor, estômago de pássaro.
Nesse caso, a alma não levita, entranha-se na terra fecundando-a.
Há um espírito universal em tudo o que vive e provavelmente até numa pedra. Na conjugação de todas as coisas. Há um espírito que vive numa obra de arte, nas páginas de um livro, na anatomia da memória. Na história.
A passagem de cada um de nós pela vida alimenta esse espírito, o que nos coloca a todos como irmãos, filhos de uma mesma mãe.
Estar à espera de um céu depois de morrer, seja por via de uma licença passada pela igreja, seja por via da própria espiritualidade de cada um, é um pensamento profundamente redutor.
A função de cada ser nesta vida, é ser melhor. Signifique isso a capacidade de irmos perpetuando a beleza das coisas e das suas emoções, a nobreza dos gestos e da partilha, mesmo que cada um cometa erros, ou sinta que falhou num determinado momento.
O espírito de cada um realiza-se num todo. Não existe um qualquer lugar marcado no céu, não existe propriedade nem o seu direito.
A capacidade destrutiva do homem faz parte do ciclo infinito da vida. A terra será uma rocha um dia, mas haverá sempre uma semente de liberdade a romper o chão, a vir da água, a trepar às árvores, a nascer do ventre de uma mulher, seja até num outro lugar.
A história da terra escreve-se em poema, a vida é uma prosa só.

sábado, 31 de outubro de 2009

A Gina está uma senhora



Ouvi hoje, manhã cedo, a caminho do trabalho, a notícia de que a Gina fazia trinta e cinco anos.
Vinda para o país nos tempos imediatos à revolução de Abril, terminada que foi a censura, pela mão de um editor arrojado, que a descobriu, imagine-se, na conceituada Feira do Livro de Frankfurt, logo suplantou a crónica feminina, a revista ícone que vinha já de outros tempos. Ao que consta, vendendo-se de um dia para o outro 30.000 exemplares.
Um sucesso, a primeira revista pornográfica que entrou em Portugal, na euforia de uma liberdade sem medida, e ainda bem para quem aprende com os erros.
Venderam-se desde aí, presumo que milhões de unidades.
Conhecem-na por maioria os homens, mas por inerência directa, também as mulheres, que sempre as descobriram ao namorado ou marido. Na mesinha de cabeceira, em cima de um armário, ou num fundo falso secreto.
Eu quando era rapaz, guardava-as no mesmo sítio onde o meu pai também escondia as primeiras cassetes Betta, depois VHS. Num fundo de um relógio de pé, guardadas pelos pêndulos interiores. Único local da casa onde minha mãe, doente por limpeza, nunca se iria lembrar de limpar o pó. Ou se calhar não e também sabia…
A Gina começava sempre pelos preliminares da história, com o encontro, a roupa ainda vestida, coisa que hoje parece ter entrado em desuso. Havia sempre uma histórinha de escacha pessegueiro pelo meio, mas era sempre isso aquilo que mais excitava o pessoal.
Depois entravam as línguas em acção, empurradas por legendas de fraco recorte literário, coisa perfeitamente normal para o género.
Quem quisesse, logo no início deste tempo, e preferisse uma coisa mais soft, podia sempre assistir às primeiras exibições em cinema de «O último tango em Paris», e deleitar-se com dois dedos untados em manteiga e a sugestão de que algo se passava num buraco estreito.
Lembro-me de os meus pais me deixarem em casa da minha avó para o irem ver, e no dia seguinte estar um chocolate na mesinha de cabeceira. Não fosse esse detalhe, e eu nunca questionaria que tipo de filme tinham ido ver.
A Gina foi responsável por muita borbulha na cara, muita noite mal dormida, olhos encovados, fazendo disparar o consumo nos adolescentes de óleo de fígado de bacalhau, que suas mães assim o impunham para evitar uma fraqueza.
Na casa de banho, no quarto, ou na própria sala quando os pais não estavam, a Gina sempre se sentou com cada um.
Fosse rapaz, homem ou mulher, quem a lessem, num acto solitário, ou partilhado, a revista, ninguém o nega, sempre foi indissociável do prazer.
Compravam-se e trocavam-se, mesmo que tivessem muitas vezes páginas coladas.
Não sei se alguém, alguma vez chegou a apanhar aquelas moléstias muito faladas nesse tempo, em zonas púbicas, mas desconfio bem que sim.
Nestes 35 anos de Gina, muito Homem se fez amante pelos seus ensinamentos, numa prática demonstrada, que por repetição deu em casamento e filhos, ou não.
Neste dia, em que se comemora uma data tão significativa, mais logo pela tardinha, procurarei a minha fiel amiga no quiosque de sempre, de olhar baixo, não esquecendo de folhear primeiro outras revistas ditas normais, entregando com um assobio o dinheiro prontinho e zás que se faz tarde e bate no peito um coração.